quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Cérebro e o Emagrecimento

Por Thiago Ferreira - Hipnólogo


 Quantas vezes você já se olhou no espelho e se sentiu mal ao pensar: “eu realmente preciso emagrecer”, ou tentou vestir uma roupa que não usa há algum tempo e percebeu que não cabe mais?  Talvez você já tenha sentido vergonha de usar trajes de banho em um clube ou praia por não estar na forma física que gostaria. Talvez precise ou queira emagrecer por uma questão de saúde, mas por algum motivo, você simplesmente não consegue, apesar de não ter problemas hormonais.  Se você já passou ou continua passando por experiências similares a estas, sabe o quanto isso pode causar incomodo.
  Diante deste tipo de situação, as pessoas apelam para os mais variados recursos. Dos mais simples aos mais radicais, dos mais inócuos aos mais perigosos. Algumas fazem cirurgias estéticas (sem que haja uma necessidade médica) e conseguem um resultado satisfatório, mas após um certo período de tempo, acabam voltando a engordar. Há quem recorra a medicamentos, muitas vezes tomados por conta própria e que podem trazer os mais complicados efeitos colaterais, ou à dietas “milagrosas” cujo efeito, muitas vezes, é tão temporário quanto á duração das mesmas. Existem, também, aqueles que preferem seguir o caminho saudável da reeducação alimentar e da prática de exercícios físicos regulares. E decidem que vão começar na segunda-feira, mas o problema é que a segunda-feira escolhida “nunca chega”. Ou, as vezes, até começam a reeducação alimentar e a rotina de exercícios, mas não conseguem dar continuidade.
  Em teoria é muito fácil emagrecer e manter o peso ideal. Basta ter hábitos saudáveis de alimentação e de exercícios físicos. Mas na prática, principalmente em relação a controle de hábitos, as coisas tendem a se tornar mais complicadas. Quem nunca cedeu à tentação de fazer algo que sabia que não deveria fazer, porque o desejo foi mais forte do que a razão?  Isso acontece porque nós não nascemos com um manual de instruções que nos indique como controlarmos a nós mesmos. O que, geralmente, nos leva a tentar o autocontrole da maneira mais difícil, através da força de vontade.
  Somos educados para acreditar que é através da força de vontade que podemos e devemos atingir nossos objetivos. Esta crença deriva do fato de que a força de vontade está “situada” em nossa razão, em nosso discernimento, em nossa atividade consciente. O nosso consciente é o responsável pela nossa capacidade de julgamento, que nos permite analisar fatos e possibilidades, tomar decisões, definir o que consideramos ser certo ou errado, decidir o que devemos ou não fazer. Mas o que a maioria das pessoas não sabe, é que o consciente, apesar de ser a parte que usamos para planejamento e tomada de decisões, não é a parte responsável pela realização de nossas ações. Pois esta, é competência de nossos processos inconscientes.
  Basta prestarmos atenção para percebermos como executamos melhor aquilo que fazemos de modo automático. Quando pensamos no aprendizado de atividades como dirigir ou tocar um instrumento musical, ou mesmo amarrar os sapatos, percebemos como no início pode parecer algo quase impossível. Quando ainda estamos no início do aprendizado, precisamos prestar atenção em cada detalhe da atividade, um processo completamente consciente. Mas na medida em que ganhamos habilidade, o consciente começa a “soltar as rédeas” e passamos a realizar tais atividades de modo cada vez mais automático. Paramos de nos criticar e racionalizar a respeito dos detalhes da execução e passamos a realizá-la com um melhor desempenho.  
  Conheci um jovem e talentoso violonista autodidata, que ganhou um concurso cujo prêmio era conhecer pessoalmente e ter a oportunidade de tocar junto com um famoso e consagrado violonista do qual era fã. O jovem era extremamente habilidoso, tinha a capacidade de tocar com os olhos fechados, falar em quanto tocava e até mesmo contar uma música enquanto tocava outra. Mas ao conhecer seu ídolo ficou muito emocionado e nervoso, pois queria muito mostrar o quanto era talentoso e hábil com o violão. Para isso, sabia que não podia errar, decidiu que deveria prestar atenção a cada detalhe da execução das músicas que tocaria. Nesse momento seu consciente começou a assumir o controle de uma atividade que há muito tempo era realizada de modo quase totalmente automático. Ao invés de simplesmente tocar violão, ele começou a se cobrar e criticar. Resultado, suas constantes análises e críticas o assustaram, tiraram sua concentração e o levaram a cometer vários erros de execução.
  Podemos definir e planejar o que queremos através de nosso consciente, mas para a execução, precisamos da ajuda de nossos processos inconscientes. Pois nós não controlamos conscientemente nossos desejos, emoções, o modo como nos sentimos e reagimos aos estímulos que recebemos.
  Mas como podemos usar nossos processos inconscientes para conseguir o que queremos? A resposta é incrivelmente simples: através da imaginação. Nossa imaginação é muito mais inconsciente do que consciente e para nosso cérebro não há muita diferença entre uma experiência real e uma experiência imaginária. Nós imaginamos coisas durante todo tempo e reagimos automaticamente ao que imaginamos.  Nós não reagimos à realidade de acordo com a realidade em si, mas sim de acordo com nossas opiniões e crenças, um modelo de realidade que construímos em nossas mentes através de nossas experiências. Em outras palavras, nós reagimos ao mundo, de acordo com um modelo de mundo que criamos em nossas mentes, o modo como imaginamos que ele seja. Portanto, se fizermos mudanças em nossa realidade interna, mudamos o modo como reagimos à realidade externa.
  Este entendimento do modo como interpretamos e reagimos à realidade, nos permite ganhar controle sobre aspectos de nossas vidas sobre os quais geralmente não temos controle. Conseguindo, deste modo, um real autodomínio. E através de um trabalho correto baseado neste conhecimento, podemos fazer mudanças em nossos hábitos de pensamento e comportamento, através das quais podemos atingir nossos objetivos.
  Assim, uma pessoa que tem problemas para controlar o próprio peso, em função de hábitos que de outra maneira seriam muito difíceis de mudar, pode, através de um trabalho de mudanças em suas representações internas, mudar completamente seus hábitos alimentares, sem precisar depender do que conhecemos por força de vontade. Logo, sem sofrimentos e sacrifícios. Conseguindo assim, melhorar suas vidas de modo permanente.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O papel da expectativa na hipnose

Por Thiago Ferreira - Hipnólogo
  
  Ao longo dos meus anos de prática com hipnose, muitas pessoas têm me perguntado como é possível, com apenas um “estalar de dedos”, obter reações aparentemente incríveis de alguém que acabei de conhecer e estou conversando pela primeira vez. A resposta, muitas vezes, é simples: expectativa.
  A expectativa exerce um papel extremamente importante na prática da hipnose. Todo bom hipnotizador deve conhecer, entender, saber criar e saber utilizar a expectativa.  E deve também entender que criar expectativa já é hipnotizar. Pois uma vez criada a correta expectativa, o sujeito se torna muito mais propenso à aceitação das sugestões hipnóticas, ou seja, se torna muito mais sugestionável, logo, hipnotizado. 
  Um exemplo clássico do papel exercido pela expectativa na hipnose, é a famosa história de uma experiência realizada por hipnotizadores, em que disseram para uma senhora que queria ser hipnotizada, que ela estava para conhecer um famoso hipnotizador, uma autoridade internacional no assunto. E a apresentaram para um sujeito completamente leigo, que não entedia nada de hipnose. E ao ser apresentado a essa senhora, ele agiu como os hipnotizadores instruíram, estalou os dedos e disse “durma”. Ela instantaneamente fechou os olhos e entrou em um “profundo sono hipnótico”. E depois apresentaram a esta mesma senhora um real e experiente hipnotizador, dizendo que este era apenas um aprendiz e que ela deveria colaborar e ter paciência com ele, pois o mesmo nunca tinha hipnotizado ninguém. E apesar dos seus melhores esforços o hipnotizador fracassou. 
  Em apresentações de hipnose de palco é fácil observar o efeito criado pela expectativa. Um hipnotizador de palco habilidoso consegue impressionar facilmente os expectadores e participantes do seu show, deixando-os muito sugestionáveis. E é desse modo que o hipnotizador consegue eliciar fenômenos hipnóticos profundos e em muito pouco tempo.
  A expectativa não é o único fator responsável por respostas positivas à técnicas de hipnose, mas é certamente um dos principais. E essa mesma expectativa não se aplica somente à hipnose de palco, se aplica também à hipnoterapia. É importante que o hipnólogo consiga criar em seu cliente uma expectativa favorável em relação ao processo, seja este, terapêutico, motivacional ou qualquer outro tipo de trabalho que se faça com hipnose. Pois desse modo, além de facilitar o trabalho hipnótico através do aumento da responsividade do cliente, proporcionado pela expectativa favorável, o hipnólogo estará também evitando a possibilidade de auto-sabotagem por parte do cliente. Se o cliente não tem confiança no trabalho hipnótico que está sendo realizado, pode acontecer de se auto-sugestionar de maneira negativa, dificultando desse modo, um trabalho que tem a possibilidade de trazer excelentes resultados.
  Mesmo fora do contexto da hipnose, é fácil observar a maneira como nossas  expectativas nos influenciam. Quando, por exemplo, somos apresentados à alguém depois de nos ser dito algo à respeito dessa pessoa que consideramos ser muito negativo. Se acreditamos no que foi dito, podemos criar uma expectativa ruim em relação à pessoa em questão. E se isso acontece, tendemos a tomar uma postura muito crítica em relação a mesma. Tudo de positivo que esta demonstra, nós não percebemos, ou desconsideramos. Mas qualquer possível detalhe que consideramos negativo em seu comportamento ou personalidade, nós não só percebemos como tendemos a exagerar essa percepção.
  Apesar de eu estar envolvido com hipnose desde criança, durante um certo período da minha vida, em função da minha facilidade natural com números e cálculos, dava aulas particulares de Física e Matemática. E uma coisa que, nessa época, me chamava a atenção, era o modo como pessoas notavelmente inteligentes desenvolviam uma extrema dificuldade de aprendizado em relação, principalmente, à Física. Pelo simples fato de terem sido sugestionadas para terem dificuldade. A grande maioria dos alunos, antes de terem o primeiro contato com a Física, já tinham ouvido, com certa frequência, de pessoas mais velhas e em quem confiavam “o quanto Física é difícil”. Me lembro de um aluno que me contou que seu irmão mais velho costumava dizer: “se você pensa que está tendo dificuldades agora, é porque ainda não começou a ter que estudar Física”.  Este e muitos outros, desenvolveram uma extrema dificuldade, uma limitação, pelo simples fato de terem aceito uma sugestão que gerou uma expectativa negativa.
  Uma vez fui fazer uma apresentação de hipnose para um grupo de jovens universitários, mas eu não sabia que os membros de grupo tinham a intenção deliberada de resistir a qualquer tentativa minha de hipnotizar. Ao iniciar minha apresentação, fiz um pequeno teste de sugestão, para selecionar quem responderia melhor às técnicas que eu pretendia usar. Ao executar o teste, observei que todos responderam de modo negativo. Esta situação incomum, me fez desconfiar do que estava realmente acontecendo. Diante dessa situação, eu decidi usar o “fator expectativa” ao meu favor.
  Falei para as pessoas que eu já tinha feito o teste de que precisava para determinar o perfil da platéia e comecei a andar entre os membros do grupo enquanto olhava intensamente para seus rostos. Então comecei a escolher aleatoriamente, os sujeitos para hipnotizar. E ao escolher alguém, eu dizia, “olhe pra mim”, eu olhava através do sujeito, aguardava uns três segundos e então dizia, “você está pronto(a)”.  Em seguida eu levava o sujeito para frente do grupo e fazia a indução hipnótica. Eu não tinha visto nada de especial em nenhuma das pessoas que escolhi. Mas quando os olhei, do modo como olhei, e disse que estavam prontos, dando a entender que tinha visto algum possível sinal que me indicasse algo, eu criei toda a expectativa de que precisava para hipnotizá-los. Todos os que eu escolhi foram hipnotizados, e eu pude fazer a minha apresentação.
  São incontáveis os exemplos que podem ilustrar o papel que nossas expectativas exercem em nossas vidas. E entender esse papel, nos abre um grande leque de possibilidades, pois nos ajuda a aprender a usar o “fator expectativa” ao nosso favor. Tanto dentro, quanto fora do contexto da hipnose.